19/03/2020

COVID-19 (coronavírus): o que há de novo acontecendo na Ciência?

Uma vez que informações sobre o coronavírus e a COVID-19 tem sido amplamente divulgadas na mídia, o propósito desse artigo é apenas trazer algumas informações mais técnicas, em particular sobre o que está acontecendo no front científico, descobertas e iniciativas recentes que serão relevantes no combate a essa terrível pandemia.

Como informação inicial, o agente etiológico da COVID-19 é um vírus denominado SARS-CoV-2 (que vem de Severe Acute Respiratory Syndrome – Coronavirus 2, ou Coronavírus 2 causador de síndrome respiratória aguda grave). Aliás, “COVID-19” é o acrônimo para Coronavirus disease 2019, ou doença por coronavírus surgida em 2019. O SARS-CoV-2 é o sétimo coronavírus conhecido que infecta humanos, e o terceiro que causa doença grave. Os primeiros casos de COVID-19 surgiram na cidade de Wuhan, China, no fim de novembro e início de dezembro de 2019 e, em pouco mais de 3 meses, em 18 de março de 2020, atingiu 200.000 casos em 164 países, com cerca de 8.000 mortes (uma letalidade de 4%). Como o vírus apresenta alta similaridade com coronavírus de morcegos, acredita-se que surgiu como uma zoonose transmitida a partir desses animais. Posts na internet chegaram a sugerir que o SARS-CoV-2 pudesse ter sido gerado em laboratório, de forma proposital, mas um estudo publicado na revista Nature em 17 de março mostrou evidências de que isso não é verdade, que o vírus evoluiu naturalmente. Esse artigo revelou que uma mutação ocorreu no coronavírus original, especificamente na molécula de superfície do vírus que se liga ao receptor em células humanas, fazendo com que essa interação ligante-receptor fosse otimizada e, portanto, tornando o vírus altamente infectante para seres humanos. O receptor para o vírus é a enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), expressa nos pulmões, rins e também no intestino, fazendo com que o vírus esteja presente não somente em secreções das vias aéreas superiores mas também nas fezes.

Em relação à clínica, um estudo na China mostrou que as manifestações clínicas comuns incluíam febre (88,7%), tosse (67,8%), fadiga (38,1%), produção de catarro (33,4%), falta de ar (18,6%), dor de garganta (13,9%) e dor de cabeça (13,6%). Uma fração menor dos pacientes apresentou sintomas gastrointestinais, com diarréia (3,8%) e vômito (5,0%). Pacientes mais velhos ou com comorbidades (hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes, doença cardiovascular) desenvolveram rapidamente complicações como a síndrome do desconforto respiratório agudo, choque séptico, acidose metabólica e disfunção da coagulação, em alguns casos levando à morte. Na China, de 80.000 casos, 18% apresentaram formas graves e 3,5% foram a óbito. Na Itália, a taxa de mortalidade está ainda maior (8,3%, com 41.035 casos e 3.405 mortes registradas até 18/03). Considerando as faixas etárias, 80% das mortes tem sido registradas em idosos acima de 60 anos. Como a COVID-19 é transmitida com facilidade e por enquanto não existe uma vacina e nem tratamento eficaz, torna-se de fundamental importância evitar o contágio, e por isso as medidas de distanciamento social, por radicais que pareçam, são tão importantes. Essas medidas foram cruciais para que a China rapidamente controlasse a epidemia (quase sem novos casos atualmente), assim como países como Coréia do Sul, Singapura e Taiwan. Ainda há muito pouca informação sobre casos de sucesso na recuperação de pacientes graves e que poderiam auxiliar as equipes médicas no cuidado com tais pacientes enquanto um tratamento específico contra o SARS-CoV-2 não é disponibilizado. Alguns relatos trazem esperança, como o de um paciente transplantado renal que desenvolveu pneumonia relacionada à COVID-19 na China e que mesmo estando em terapia imunossupressiva há vários anos conseguiu se recuperar.

Mas quando uma vacina e tratamentos eficazes contra a COVID-19 estarão disponíveis? Vários países já estão trabalhando no desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV-2, inclusive o Brasil. Isso foi possível pela disponibilidade de todo um parque de alta tecnologia em pesquisa biomédica nesses países, e também pela cooperação entre cientistas. A China rapidamente sequenciou o genoma do SARS-CoV-2 e disponibilizou para a comunidade científica mundial. Aqui no Brasil, cientistas da USP e Instituto Butantã também sequenciaram em 48 horas o genoma do SARS-CoV-2 isolado do primeiro paciente diagnosticado no Brasil. A disponibilidade dos genomas sequenciados permitiu o desenho racional de vacinas usando diferentes abordagens. A primeira vacina experimental a entrar em testes clínicos (ou seja, testada em seres humanos) é denominada mRNA-1273, e os testes (fase I) foram iniciados nos Estados Unidos na semana passada. A China iniciou os testes em humanos com uma vacina essa semana. No Brasil, equipes da USP e do Incor trabalham em uma vacina, mas ainda estão na fase de desenvolvimento. De qualquer maneira, mesmo os estudos mais adiantados ainda vão demorar a gerar um produto final que possa ser administrado nas pessoas. É preciso mostrar que a vacina é eficaz, ou seja, previne de fato a COVID-19 ou suas complicações, e também que ela é segura. Esses estudos podem levar meses ou até anos. 

Com relação ao tratamento, já existe intensa pesquisa em busca de drogas eficazes contra o SARS-CoV-2. Uma das drogas mais avaliadas até o momento é a cloroquina, uma droga utilizada há décadas para tratar malária, e que tem mostrado efeitos contra o SARS-CoV-2. Atualmente, existem mais de 20 estudos em humanos na China testando a cloroquina, e um estudo com poucos pacientes na França acabou se ser publicado, mostrando que a combinação de hidroxicloroquina com o antibiótico azitromicina resultou em eliminação bem mais rápida (6 dias) do vírus das vias aéreas superiores (sem esse tratamento, o vírus pode continuar presente por 3 semanas ou mais). É uma ótima notícia pois esse tratamento poderia reduzir em muito a transmissão do coronavírus. Além disso, sugere-se a possibilidade de que esse tratamento pode ser utilizado como prevenção para profissionais da saúde em contato direto com pacientes. Resta ainda demonstrar se o tratamento pode trazer benefícios por exemplo para pacientes graves, melhorando a sobrevida. Além da cloroquina, vários antivirais estão sendo pesquisados. Um deles é o favipiravir, que tem mostrado resultados muito promissores. Outro é o redemsivir, cujo principal estudo clínico é liderado por um pesquisador brasileiro nos Estados Unidos. Outro estudo com redemsivir está sendo conduzido na China. Outros tratamentos em estudo incluem interferon-alfa, lopinavir/ritonavir e arbidol. Essas abordagens visam interromper a replicação do vírus no organismo. Uma outra abordagem que tem sido considerada é a de interferir na ligação do vírus ao receptor (ACE2), impedindo sua entrada na célula. E na era do big data, sistemas computacionais permitem uma triagem virtual de uma quantidade gigantesca de possíveis novos antivirais. Um estudo recente avaliou 1,3 bilhão de compostos capazes de se ligar a uma proteína do SARS-CoV-2, e identificou cerca de 1.000 compostos com potencial de se tornar uma nova droga.

Existe, enfim, grande expectativa que um tratamento eficaz, seguro e de custo razoável seja definido rapidamente e que possa ser disponibilizado para os pacientes com COVID-19. Mas enquanto não é possível contar com uma vacina e/ou terapia antiviral eficazes contra a COVID-19, não nos resta outra opção a não ser seguir as recomendações do Ministério da Saúde amplamente divulgadas na mídia, tanto relacionadas à higiene pessoal quanto aquelas de cunho comportamental, em particular o chamado distanciamento social, muito especialmente de idosos. 

Para informações confiáveis sobre a COVID-19, é aconselhável buscar sites oficiais como os da Fiocruz (https://portal.fiocruz.br/coronavirus) e do Ministério da Saúde (https://saude.gov.br). 

Leonardo José de Moura Carvalho
Pesquisador Titular
Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz
Rio de Janeiro, RJ

OBS: o autor organiza, em outubro de 2020, o simpósio internacional “Ameaças Globais Emergentes e Reemergentes em Saúde”, uma cooperação entre a Fiocruz e o National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, no qual a COVID-19 terá destaque. O simpósio ocorre em associação com a XVI Reunião Nacional de Pesquisa em Malária (http://www.malaria2020.com.br).


Referências bibliográficas:

  • https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9
  • https://drive.google.com/file/d/186Bel9RqfsmEx55FDum4xY_IlWSHnGbj/view
  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32181990
  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32173110
  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32147628
  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32142651
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  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32162456
  • https://mmrjournal.biomedcentral.com/track/pdf/10.1186/s40779-020-00240-0
  • https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ddr.21656
  • https://www.nih.gov/news-events/news-releases/nih-clinical-trial-investigational-vaccine-covid-19-begins
  • https://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(20)30195-X/fulltext?rss=yes
  • https://www.theguardian.com/world/live/2020/mar/19/coronavirus-update-live-news-who-covid19-cases-outbreak-us-states-uk-school-closures-australia-europe-eu-africa-asia-latest-updates

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